quinta-feira, 8 de maio de 2008

VOZ DE VIOLETAS

Gostava de ver a tua voz de violetas
E fazer das violetas um tão delicado ramo como a tua voz
E colher um violino antigo para lhe ensinar a tua voz
E desenhar na água delicada a tua voz
E pintar no vento a tua voz
E olhar no azul fundo do céu a cor d a tua voz

Por fim, exausto de imaginação,
Acordar do sonho
Cercado da música da tua voz

quarta-feira, 7 de maio de 2008

INCENDIARIOS

O senhor Ministro Rui Pereira, o ministro que manda nos incêndios que todos os Verões dizimam um capital arbóreo relevante, veio a Viana dar a conhecer o dispositivo, o maior de sempre, que vai dar luta ao fogo estival…
Segundo o Ministro, o país não vai arder (não pode arder tudo todos os anos, pois não é senhor ministro?).
Foram criados os GIPS que tem 750 elementos - não disse, o senhor Ministro, quantos são directores, quantos os assessores, quantos administradores, quantos os engenheiros, em suma quantos os cargos de chefia…e quantos os operacionais.
Foi criada ainda uma força especial de Bombeiros com 140 elementos, chamados “Canarinhos” (canarinhos? O que podem os canários contra o fogo? E porque não lagartos, ou dragões, ou águias que têm neste canteiro do oeste peninsular uma força demolidora?)…
Mas os “canarinhos e os GIPS contam com o apoio de 35 helicópteros e 14 aviões a que se juntam ainda aerotanques anfíbios e pesados. E ainda os novos helicópteros, também pesados. Para além desta panóplia bélica estão ainda disponíveis mais 2300 viaturas e 9600 guerrilheiros do fogo que irão combater em sete distritos…..
Estou obrigado a confessar que não ouvi as palavras da boca do Ministro Rui Pereira e que respiguei este dados dum registo gráfico feito por um caligrafo sem nome no mais prestigiado jornal de Viana…
Todavia, a fiabilidade dos números e a qualidade da prosa não interessam para o caso.
Certo é que há milhões e milhões de euros a serem esturrados em aviões, helicópteros e viaturas para combater o que não é combatível.
Eu tive a sorte de nascer numa aldeia e de aprender logo de pequenino que onde há pinheiros e eucaliptos há um coberto vegetal de tojo.
Aprendi que os pinheiros devem ser esgalhados todos os anos e que o tojo deve ser roçado de 4 em 4 anos.
Aprendi que sob os carvalhos e os castanheiros não há coberto vegetal facilmente inflamável.
Aprendi que pinheiros e eucaliptos crescem depressa e muito depressa vão alimentar celuloses.
Aprendi que carvalhos e castanheiros podem ter centenas de anos de crescimento…e não servem para celuloses.
Aprendi que nos montes do meu avô os pinheiros eram sempre esgalhados com serrote manual e o tojo roçado com enxada de 5 libras e que desta forma simples nunca lhe ardeu um monte.
Sei que o que andam para aí a fazer não previne nada e mete milhões e milhões no bolso de alguns…
Venham limpar as matas com engenhos modernos e mecânicos e tragam os presos, os tropas, e a maioria dos deputados para essa tarefa…
Garanto-vos que toda a tralha que o senhor ministro Rui Pereira veio, com alarido, anunciar aqui em Viana poderá ser dispensada…
Com fartos ganhos para o erário público.
Não sei é o que aconteceria depois aos senhores que andam a mamar o biberão do artifício do combate aos incêndios.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

AS HORAS

Não gosto de chegar quando tu dormes.
Se dormes, enquanto dormes, estás fora da minha velada adoração.
Olho-te como anjo, como nuvem ou como nevoeiro,
E fico à espera que o galo cante
Ou que um sonho se levante
Quando a madrugada acordar.
Pela noite da noite nunca há devoção
Andamos e topamos com o tronco das flores
Perdidos de amores
E acordaremos entre as dúvidas e as saudades
Entre o sonho e as margens das nossas liberdades

Ouvir-te-ei como se no campanário
Um alerta tocasse o meu diário...

Qualquer hora é hora de capela,
Hora de te escrever um roussinol na lapela,

E depois olhar o sol, como se o sol fosse o meu irmão
Como se o trevo, a leituga, a salsa, o ar
Corressem no desencontro da sua natureza de mão dada
De mão na mão, de mão na mão, de mão na mão!

domingo, 4 de maio de 2008

A POESIA

A poesia trata de mim, muito mais do que eu trato da poesia.
Eu nunca estou só.
A poesia também nunca está só.
Ambos moramos onde moram as palavras.
Aquelas palavras que têm cores
e formas
e sabores
Aquelas que, mesmo de noite, são mais coloridas que o arco-íris

São as nossas palavras quem desenha
As casas para onde vão morar os poemas

É por isso que olho as palavras com ternura menina.
Sobretudo, quando lhes sinto o afago às portas do sono.

sábado, 3 de maio de 2008

ESCREVER

Escavo, escravo, escrevo.
Tudo e todos exigem que de quanto escrevo tenha que nascer um projecto, um louvor, um hossana uma dentada no corpo…
Nunca farei nada a mando faço o que a minha natureza pede. E vou até onde o sono me apetece.
Não tenho que destinar nada para ninguém.
A escrita não é ouro de lei nem encomenda que se tece.
Escrevo porque me apetece. E tudo me apetece quando o fogo, o luar, um olhar, um desaforo entram na razão e abanam as cordas do coração
Escrevo como quem explode. E não cuido dos estilhaços das palavras e muito menos dos campos que se lavram à custa do aparo do meu arado que gosta de escrever sem tino e sem reservas.
Sou como a erva do prado verde que nem ganha nem perde com os acontecimentos da tristeza matinal ou com os complexos do colorido outonal.
Escrevo como se toda a gente andasse no pitoresco carrocel de Santander.
Escrevo por prazer depois de ter uma dica qualquer, uma pancada, uma lambada, uma cajadada ou um coice de mula maltratada.
Escrevo para me defender como escrevo para ofender.
Escrevo em qualquer sítio, rijo ou mole, no panal de espanto ou no mural escondido onde não se veja.
Mas o que eu gosto mesmo de escrever é uma grossa asneira na porta da igreja.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

O TEMPO DE VIVER

Sobe até onde a uva está madura
e não digas mais nada.
O resto é vida.
Cerca de flores e de sementes a quem amas
ainda que amar seja uma aventura
neste tempo de urgências e receios.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

34 ANOS DEPOIS DA PRIMAVERA DE ABRIL

Fui meter combustível e tive dificuldade em conter uma série de impropérios. Claro que a pessoa da caixa não tinha, nem tem, qualquer culpa! Só isso me levou a ser comedido. Mas por dentro fiquei ruído, estragado, podre…
Isto não é uma gestão é um saque institucional que se faz, cada dia que passa, ao cidadão indefeso.
Porque será que os combustíveis do outro lado da fronteira custam menos 30 cêntimos por litro? E o leite é muito mais barato? E o pão também?
Este país, tal como navega não é viável…
O Dólar vale agora 60 cêntimos do Euro.O Barril de crude sobe, mas sobe em dólares, não sobe em euros…
Dá vontade de pegar na minha velha moca das praxes coimbrãs, ir por aí abaixo, entrar pelas portas da governança e escaqueirar aquela ganga toda. Já que não se pode fazer uma revolução porque as escopetas estão na mão dos tropas, e eles estão muito bem entretidos na mesa do poker e agarrados ao whisky… fazia, pelo menos, um reboliço para espantar a turba e quebrar esta modorra do português resignado com tudo, menos com as lástimas do Benfica, e com os preparativos do 13 de Maio na Cova da Iria…
Vivemos num país onde já não há classes sociais diferenciadas, mas castas!
Os senhores da política, arrimados às tropas e aos chefes dos aparelhos judiciários estão no topo e estão-se nas tintas para custos de bens essenciais. Têm carros do Estado, combustíveis pagos pelo estado, e se calhar ignoram a cartelização das gasolineiras que combinam preços e aumentam o que querem e quando querem…
Os capitalistas também deixaram de ser classe para ser casta. São donos e senhores intocáveis na sua grandeza: olhem só para os bancos!!!
Vivemos num país onde se estratificaram privilégios e obrigações.
Os proletários, os trabalhadores, não se enquadram mais na classe operária, mas estão antes na casta dos párias, sem direitos, sem recursos que possam garantir a saúde, a educação, a habitação e a alimentação…
Que se pode fazer hoje com 500 ou 600 euros por mês?
Haverá cultura que esteja acessível para quem consegue sobreviver com estes salários?
Os jovens gozam dum idealismo, têm um sentido de justiça não corroído por comodismos e, na sua irreverência, olham a política e os políticos com desprezo…..
Não há que espantar, Senhor Presidente da República, há que compreender…
E mande! Que o senhor pode mandar!
Acabe-se com a classe política que é, genericamente, um coio de inúteis e de crápulas.
Reduzam o exercício político, a qualquer nível, a dois mandatos e mandem essa gente trabalhar….
Que a maioria nunca fez nada, nem sabe fazer outra coisa que não seja governar….
Ora, como pode governar quem não sabe fazer nada?
Esta não é a verdade nua e crua?
Quem é capaz de demonstrar o contrário?