segunda-feira, 27 de outubro de 2008

AS PALAVRAS

Todas as palavras são atrevidas quando são palavras
E são atrevidas porque são eminentemente humanas.
Só o humano sabe da palavra, procura a palavra, descobre a palavra, ama ou odeia com palavras e sente que a palavra quer entrar mesmo sem prévio aviso.
As palavras somos nós:
Há palavras redondas e inertes, palavras definitivas.
Há palavras acabadas sob um gesto e palavras sem gesto.
Há palavras que dizem tudo sem dizer coisa nenhuma..
Há palavras extremas e grandes palavras pequenas.
Há palavras repetidas que nunca são exactas: nem sequer sentidas.
Há palavras atadas à conveniente circunstância.
Há palavras doces e palavras azedas.
Há palavras verdade exactamente iguais às palavras mentira
Há palavras perdidas e outras prisioneiras. Também há palavras fora de tudo quando tudo está fora das palavras.
Há palavras abertas como água e palavras fechadas
Há palavras que voam ditas e outras palavras que moram escritas
Há palavras lume e palavras afogadas, mortas, em decomposição.
Há palavras rebeldes, outras bem comportadas e muitas de simulada cerimónia. São as palavras do quando…Porque há palavras tempo e palavras momento muito diferentes fora e dentro.
Há palavras virgem, vertigem ou esperança e sempre à espera da estrela matinal.
Há palavras gume, palavras de ciúme, palavras mansas ou de pecado original
Há palavras perfume em feitio de flor…
Há palavras absolutas, infinitas, tão infinitas como a cor do amor.
Mas sempre há sentimentos que nos moram por dentro e não cabem nas palavras.

domingo, 26 de outubro de 2008

O MEU MAR

Hoje é dia de ouvir o mar.
Esquece as gaivotas
que são pássaros solenes e soberbos
mas inúteis
Esquece as gaivotas
e ouve o mar que é tudo:
O ventre azul dos mistérios da indecifrável origem
O coro das sereias do eterno encantamento
A tristeza dos silêncios de cada momento
O caminho do sol aberto por todas as manhãs.

Esquece as gaivotas
E deixa que o mar entre
e lave
e leve
o definitivo corpo da flor.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

SEM DONO

É bago a bago que colho os dias
Sob a indiferença do tempo.
Não.
Com toda a minha indiferença perante o tempo.

Eu sei que numa noite de luar
O tempo será três sinfonias
E que, depois, ao acordar,
Terei um arco enorme e colorido de harmonias…
Mas eu sou pior que o deus me livre
E já passei, sem retorno, para um jardim sem dono
Onde faço comigo o que me dá na gana…

Ser livre tem que ser assim:
Os outros são tudo para mim
Mas, depois dos outros, não me importo de ser um safardana
Sem deus, sem pátria, sem telha, sem nada,
Quero ir ao limite de experimentar o sublime sabor do abandono.

SEMPRE SUAVEMENTE

Tenho uma gaivota na minha janela.
É uma gaivota suavemente branca que veste uma capa
Delicadamente cinzenta.

A minha gaivota é minha confidente
Ouve todos os meus segredos
E voa muito silenciosamente
Naquele voo inteligente que não pede esforço
Nem leva destino marcado.

Anda, vem aprender a voar com a minha gaivota...

O POEMA DO AMANHÃ

Mora comigo um poema atento
Muito tão atento que fica sempre desperto
Particularmente entre a distância e os silêncios.
É um poema que sempre me confunde, que não distingue o pão e as madrugadas, a música e os pássaros, o mar e as árvores.
Mora comigo um poema atento
É um poema transparente e aéreo.
É um poema nu e brando como as penas do afago tímido
É um poema que desabrocha pelas noites carregado de perfumes.
Depois, há sempre um susto
Que sempre faz adiar o poema para o dia que há-de vir.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

SEPULTADO NA GUERRA

É o momento do poema que não sei dizer.
Levaram-me a música
e as pautas de aprender
os movimentos da canção.

Agora
fico-me

num gesto de mão
a embargar o poema.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Os Sinos são da cor da erva madura com cheiro a orvalho quando amanhece.
Gosto deles.
Nos campanários altos fazem músicas inocentes que parecem alegrias e tristezas.
Aprendi a gostar dos sinos depois de odiar as novenas nas madrugadas geladas.
Não.
Talvez goste dos sinos porque faziam uma música misteriosa que nem as barbaridades do prior conseguiam estragar
Verdade que nunca faltava a essas novenas para contentar os vícios espirituais de minha mãe.
E prova de que não sou pessoa de ódios é que dos sinos que me tocavam para as missas do cedo e do frio, ouço ainda hoje, músicas duma filarmónica de Sergi Celibidache

domingo, 5 de outubro de 2008

A COR DO SILÊNCIO

Diz-me rio, ave, vento marinho,
Conta-me árvore, pedra do caminho,
A cor deste silêncio.

Amanhã haverá nuvens, talvez, e depois chuva,
Ou mesmo um temporal
Que deve ser bravo e tropical
Para que possa romper o espesso véu
Que branco ou de negro
Pesa do céu.

Cai no feitio inerte duma espuma de paz
Mas a paz do silêncio é um buraco íntimo
Um tormento gelado
Uma pia agonia
Um ruído obsceno
Num cenário ameno

Conta-me, flor de rosmaninho,
A cor deste silêncio.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

ESCREVER

Escavo, escravo, escrevo.
Tudo e todos exigem que de quanto escrevo tenha que nascer um projecto, um louvor, um hossana, uma dentada num corpo qualquer.
Nunca farei nada a mando, faço o que a minha natureza pede.
E vou até onde o sono me apetece.
Não tenho que destinar nada para ninguém.
A escrita não é ouro de lei, nem encomenda que se tece.
A escrita não tem venda.
Escrevo porque me apetece.
Escrevo porque a escrita acontece.
Quando o fogo, o luar, um desaforo entram na razão e me abanam as cordas do coração.
Então,escrevo como quem explode
E não cuido dos estilhaços das palavras
Muito menos dos campos que se lavram à custa do aparo do meu arado
que teima em correr sem rumo e sem reservas, seguindo o luar
à procura dum norte sem tino.
Sou como a erva do prado verde.
O orvalho matinal aquenta-me as loucuras do colorido outonal.
Escrevo como se toda a gente andasse na rópia das minhas festas
Escrevo por prazer depois de ter uma mensagem qualquer,o leite de uma mulher amada, uma aventura falhada…
Escrevo para me defender como escrevo para ofender.
Escrevo em qualquer sítio, rijo ou mole, no panal de espanto
ou no mural escondido onde não se veja.

Mas o que eu gosto mesmo de escrever é uma grossa asneira na porta da igreja.